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A vida com 3

Eu geralmente não toco nesse assunto de número de filhos, porque eu acho que é uma coisa pessoal e é também um assunto delicado, especialmente para pessoas que estão tentando engravidar sem sucesso. Mas outro dia eu li um artigo e me deu uma coceirinha pra comentar aqui. Uma amiga que está grávida do terceiro filho compartilhou no Facebook esse texto: Três filhos? Tá bem na fita, hein? Vale a pena dar uma olhadinha lá antes de terminar de ler aqui.

Eu nunca tinha acessado esse blog e confesso que ainda não li mais nada de lá, mas achei o texto interessante porque nós Alves Passos geralmente encaramos o mesmo tipo de questionamentos. Assim como a Ivna Sá, que escreveu aquele post, eu também fico indecisa entre dar aquela risadinha educada, ou se dou pano pra manga quando as pessoas lançam aquele “família grande, hein?” ou comentam que meu marido deve ganhar muito. No nosso caso também porque só o Esdras trabalha fora, e nós gostamos de viajar (alguém já percebeu?). “O salário aí na Irlanda deve ser muito bom pra vocês viajarem tanto com 3 crianças”. Er… não necessariamente. Como o próprio Esdras diz “Eles não sabem as roupas velhas que a gente usa, não vêem as marmitas que a gente come”.

by Evelyn

Aqui na Irlanda 3 filhos não é uma família grande, é um número bem normal. “Família grande” era a da minha mãe, que eram 6, ou do meu sogro que eram 9. Temos amigos com 4 filhos ou mais, e é normal. Então quando ouvimos o comentário “Você tá com as mãos cheias, hein?”, ele geralmente vem de alguma mulher que já teve os seus, e sabe que realmente dá trabalho cuidar de criança pequena, seja uma, duas, ou seis. Mas sempre tem a pessoa que acha que a gente ganha rios de dinheiro e se acha no direito de fazer piadinha. Então, como é que a gente passeia tanto com 3 crianças pequenas?

A resposta mais simples seria: é uma questão de prioridades. É claro que tem custos que são diferentes aqui na Irlanda e no Brasil. Por exemplo, a escola aqui é pública e muito boa, e eu sei que escola é uma das coisas que pesa na decisão de ter filhos (e quantos ter). Eu sei que a minha mãe abriu mão de muitas coisas pra poder pagar escola particular pra mim. Ainda assim, foi uma questão de prioridades: se a prioridade da minha mãe tivesse sido ter mais dinheiro pra gastar em vez de investir na educação de qualidade, ou se o salário dela não cobrisse mais o custo da escola, eu provavelmente teria ido pra escola pública.

Mas, na real, não existe uma resposta simples. Essas escolhas afetam muitos níveis da vida. Nós não ligamos pra roupa de marca, nem pra quantidade de roupas. Nem pra nós, nem pras crianças, até porque elas nem sabem a diferença! Eu não ligo pra ir no cabeleireiro toda semana (como muitas mulheres aqui fazem), nem faço as unhas fora. Nós raramente comemos em restaurante. Nós temos só um carro (enquanto muitos casais com filhos aqui decide ter 2) e não ligamos pra ter carro do ano. Nós não enchemos nossas filhas de brinquedos nem fazemos festas caras de aniversário (Imagina? 3 festas caras por ano?). Também decidimos não encher as crianças de atividades, até porque elas precisam de tempo pra brincar! E mesmo nas viagens, não ficamos em hotéis 5 estrelas, optamos por acomodação simples, de preferência onde possamos fazer a nossa própria comida e sempre procuramos as passagens mais baratas. E nessas escolhas nós ensinamos pras nossas filhas o valor das coisas, e o valor de estarmos juntos.

Mas outra coisa que a Ivna menciona no post dela é a questão de investir tempo nos filhos. A nossa matemática funciona mais ou menos como a dela: a gente ganha menos dinheiro (eu ainda não voltei da “licença maternidade”), gasta um bocadinho mais (depois do primeiro filho a gente não compra mais tanta roupa, nem berço, nem carrinho, nem muito brinquedo) mas optamos por ter mais tempo pra passar com as meninas. Por um tempo eu escolhi ter menos tempo “livre” (à noite, na verdade) e mais dinheiro, mas estávamos mudando de casa, então tinha um objetivo específico. Claro que eu entendo que muitas famílias não têm essa opção porque as contas têm que ser pagas, e é ainda mais difícil no Brasil, onde a licença maternidade é só de 4 meses e geralmente os avós ainda estão trabalhando também! Estou falando de casos em que se pode escolher entre ter mais dinheiro ou ter mais tempo. E mesmo pras mães que, como eu, optaram por ficar em casa, nem sempre é fácil, mas isso é motivo pra outro texto.

Pra vocês verem como o tempo passado com os filhos é importante: no ano passado, os professores começaram um programa novo na escola das minhas filhas para desenvolver a comunicação oral. Isso mesmo, a fala! Por quê? Por que as crianças, com 4 ou 5 anos chegavam na escola sem conseguir se comunicar, com pouco vocabulário e pouca educação. Então pra eles não fazia sentido introduzir escrita se eles mal conseguiam falar direito! Isso, segundo a escola, é resultado de falta de interação em casa. Não é conversinha de pais no portão, nem post de “verdades alternativas” no Facebook. Foi pesquisa feita pela escola.

Muita gente coloca a culpa na televisão/celular/tablet, mas aqui em casa elas assistem vídeo e jogam no celular, mas não falta conversa, brincadeira e muita risada. Até porque, quando eu estou ocupada cuidando da casa, elas têm uma à outra pra brincar e conversar. Pra nós, passar tempo junto não é cada um no seu aparelho assistindo coisas separadas, nem necessariamente sair pra comer fora com cada uma individualmente. Às vezes a gente sacrifica os nossos seriados pra ver um “My Little Pony” com elas, e saber quais são os personagens que elas curtem, e porque elas gostam deles, ou até discutir o que os personagens fazem de errado. É conversar sobre o dia no caminho de volta da escola, é sentar e ler um livro pra elas (mesmo que elas já tenham lido 100x!).

Às vezes é difícil fechar a matemática financeira mesmo. Minha mãe trabalhou durante toda a minha infância e parte da adolescência (até se aposentar), apertando daqui e dali pra ter sempre comida na mesa, mas ela sempre foi presente e tirava tempo pra passar comigo. Nunca faltou comida na nossa mesa, nem roupa pra vestir, graças a Deus, e também não falta nada pras nossas filhas. Esses anos passam muito rápido. Alguns dias parecem intermináveis, mas os anos passam muito rápido. Logo mais elas estarão pagando as próprias passagens pra viajar com os amigos! A infância é um tempo muito curto, comparado com o resto da vida. Com 13 anos já são adolescentes, com 18 já são adultos!

A matemática da Bíblia, aquele livro antigo e ainda tão atual, nunca nos falhou. O segredo é, como Paulo,  saber viver com o que se tem, sem querer ostentar ou desejar sempre ter o “maior e melhor”.

Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade.

Tudo posso naquele que me fortalece.

Filipenses 4:12,13

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