Arquivos

Mariana encontra o Doutor

— Você salvou a minha vida, mas eu nem sei que você é!

— Eu sou o Doutor — disse ele, com o seu cabelo escuro, terno marrom listrado, encostado com um ombro na porta daquela estranha caixa azul que eu nunca tinha visto na minha vizinhança.

— Doutor quem?

— Só Doutor.

— OK, Doutor, você veio, me salvou, salvou a Terra daqueles monstros terríveis. Qual é o próximo passo? Você vai pra casa?

— Não. Digamos que eu não posso ir pra casa porque o meu planeta já era.  A minha casa agora é aqui dentro.

— Meu planeta? Então você não é humano?

— Eu sou um Senhor do Tempo, o último deles.

— Você tem cara de humano e age como humano também, na maior parte do tempo. — ele olha pra mim e levanta uma sobrancelha —  Como assim a sua casa agora é aí dentro? Como você pode morar numa cabine de polícia? Ela nem estava aqui hoje de manhã!

— Entre e veja — ele coloca a chave na fechadura.

— Você não está esperando que eu entre, só eu e você nesse espacinh… — ele abre a porta — Oh! Como? — eu disse, colocando a cabeça pra dentro e pra fora da cabine.

Lá, dentro do que parecia uma cabine de polícia velha, tinha algo como um  centro de controle, com um tubo enorme no meio e um painel com um monte de botões, alavancas e uma ou duas telas. Era ENORME!

— Fala aí. Eu amo essa parte.

— O… o interior é maior do que o exterior!

— Se chama TARDIS, como Tempo e Dimensão Relativa no Espaço.

— Você disse que não é humano, então essa deve ser a sua nave — disse eu, andando lentamente em direção ao painel, passando os meus dedos pelos corrimãos da entrada e olhando tudo em volta.

— Bem, não é só uma nave espacial, é uma máquina do tempo.

— Viajar no tempo e no espaço… deve ser fantástico!

— Quer tentar? Qualquer tempo e qualquer lugar que você escolher — ele apertou alguns botões e puxou uma tela pra perto dele.

— Não posso — eu disse, olhando pra fora da porta.

— Tem certeza? O que pode ser melhor do que viajar pelo tempo e espaço nesse exato momento?

— Você tá vendo aquela luz ali? —  apontando para a janela de uma casa, bem na frente da porta TARDIS.

— É a sua casa?

— Não só é a minha casa, mas aquela luz acesa significa que a minha bebê ainda está acordada. Desculpa, eu preciso ir.

Ele corre e para na porta, meio que bloqueando o meu caminho.

— Terra em 2050? Marte? Oh, Saturno! Você disse que queria ver os anéis de Saturno — ele disse, com um sorriso enigmático.

— Acho que você não tá acostumado a ouvir um não, né Doutor? Você tá ouvindo a minha bebê chorar?

— Sim, e daí?

— É, você provavelmente não tem filhos… — eu disse, tentando passar por ele.

— Eu fui pai uma vez… não, duas.

— Quer dizer que você tem dois filhos?

— Na verdade não, a segunda vez foi meio… complicada. Deixa pra lá, não se preocupa com a sua bebê, ela tá dizendo que não tá cansada, e que quer ver a Peppa Pig. Quem é Peppa Pig?

— Como você pode saber o que ela tá dizendo? — eu disse com uma cara bem incrédula.

— Eu falo a língua dos bebês — ele disse com um sorriso sapeca — É um dom da TARDIS, ela traduz qualquer língua.

— Será que funciona pra mim também? Seria bem conveniente se eu entendesse tudo o que a minha menininha de um ano fala.

— Não vai funcionar se você for embora. Olha, você foi demais hoje,  seria bom poder ter a sua ajuda aqui de novo —disse ele, apertando mais alguns botões e mexendo em uma alavanca.

— Eu tenho quatro pessoas esperando a minha ajuda no meu próprio “painel de controle” amanhã de manhã.

— Você disse amanhã de manhã, então a gente pode ir agora, só uma viagem, você escolhe quando e onde, e eu te trago de volta pra esse exato momento no dia de hoje. Ninguém vai nem perceber que você saiu.

— Mas como é que eu vou aproveitar a vista dos planetas e estrelas estando tão cansada? Principalmente depois dessa aventura de hoje. Eu não durmo direito faz meses, mais de um ano talvez.

— Se você passar uma semana dentro da TARDIS e voltar para esse exato momento, você pode voltar pra casa descansada para as suas pessoinhas. Tempo não é uma coisa linear.

— Agora você falou a minha língua! Então eu durmo primeiro, depois decido pra onde vamos?

— Allons-y! — disse ele, fechando a porta da TARDIS e apontando para o console.

Eu ainda não entendo como é que todo aquele espaço cabe naquela cabine azul. Mas o Doutor me deu um quarto lá dentro e eu dormi melhor do que eu tinha dormido nos últimos anos. Eu ouvi uns barulhos, conversas e, talvez seja loucura, algumas explosões?! Acho que ele se meteu em mais encrenca e não quis me incomodar. Depois ele me levou para ver os anéis de Saturno. Até vimos um daqueles Droids da NASA por lá. Depois assistimos uma supernova, e conversamos com os Ood, criaturas bem estranhas mas muito amigáveis. Aí ele me deixou de volta, naquele exato momento em que a minha pequena repetia que queria ver a Peppa Pig, às 10 da noite.

 

Leave a Reply